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domingo, 30 de novembro de 2008

SEJA A MÃE QUE PUDER. SEM CULPAS.

MãePessoa no Portal Terra - Outubro 2008

Relacionamento
Seja a mãe que puder. Sem culpas.


A mulher precisa cuidar da sua auto-estima para poder cuidar bem dos outros.
Qual atitude é mais eficaz?
Criar prioridades na sua rotina
Reservar um tempo só para você
Diminuir o ritmo de trabalho
Incentivar a participação do pai

O tempo da Amélia definitivamente já se foi e a figura da executiva workaholic não atrai todas as mulheres. O caminho trilhado hoje pelo sexo feminino está bem no meio desses dois mundos. A mulher moderna tenta ser uma boa mãe, enquanto se desdobra para não deixar de cumprir seus diversos outros papéis na sociedade: amante, profissional, amiga, filha, esportista, líder comunitária e por aí vai.

» Veja prós e contras de deixar a profissão para cuidar da família
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O problema é que esse acúmulo de tarefas que a maioria das mulheres hoje faz questão de assumir tem provocado um sentimento frequente de insatisfação e culpa quando o assunto é a maternidade. Segundo especialistas, por mais que uma mulher se desdobre, ela tem sempre a sensação de não ser a supermãe que todos esperam.

Isso ocorre, porque, apesar de toda a revolução sexual e dos direitos femininos conquistados, a mulherada ainda carrega no inconsciente conceitos e tradições passadas de geração para geração. E essa herança interfere, sem que muitas percebam, na hora de educar e cuidar dos filhos.

Assim, mesmo as mamães mais moderninhas, em algum momento, precisarão lidar com a máxima "Ser mãe é padecer no paraíso". E aí, de duas, uma: ou ela recusa aceitar essa condição, mas vive com a sensação de ser a pior mãe do mundo. Ou faz sacrifícios em nome da família e vive insatisfeita por ficar sempre em segundo plano.

A boa notícia é que algumas instituições, grupos de ajuda e até mesmo séries de TV já notaram os novos anseios femininos e têm ajudado as mães dessa geração a tentar aliviar o peso na consciência e fazer o máximo que podem, sem traumas.

A série Mothern, exibida no canal pago GNT, por exemplo, chamou a atenção das mulheres justamente por retratar a realidade da relação entre mães e filhos hoje em dia. Os dilemas enfrentados pelas mães do seriado mostraram que não existe a perfeição - só mesmo em comerciais de margarina.

Em São Paulo, o trabalho do Instituto Mãe Pessoa vai além. Por meio de workshops, psicólogas promovem discussões para que a mulher resgate sua identidade (afinal, ela não é só mãe. Também tem vontades, desejos, prioridades) e recupere a auto-estima.

O que esses trabalhos têm em comum é derrubar tabus e mitos que ainda envolvem a maternidade e encontrar um novo jeito de ser mãe que se adapte muito melhor ao novo estilo de vida da sociedade. Segundo as especialistas, as mulheres dessa geração serão responsáveis por criar um novo exemplo de mãe.

A seguir, a psicóloga Sheila Skitnevshy-Finger, sócia fundadora do Instituto Mãe Pessoa, e Magdalena Ramos, psicóloga, terapeuta de casais e família e co-autora do livro E Agora, o que Fazer? A Difícil Arte de Criar os Filhos, dão alguns conselhos essenciais para quem já é mãe ou pretende ser .

Faça o possível
Pode parecer óbvio - e realmente é. Mas muitas mães se esquecem que são humanas e acreditam que vão dar conta de mil coisas ao mesmo tempo. "A mulher precisa abandonar o imperativo de que tem que fazer tudo e de forma perfeita", afirma Sheila.

Priorize a qualidade
Não é porque nossas avós ficavam o dia todo em casa que necessariamente seus filhos eram os seres que mais recebiam atenção no mundo. "Não adianta estar ao lado e não olhar nos olhos, não se entregar", explica a fundadora do Instituto Mãe Pessoa. A psicóloga Magdalena Ramos indica uma saída prática para as mães que têm uma longa rotina de trabalho. "Ao chegar em casa, se dedique integralmente a seu filho até que ele pegue no sono. Só depois volte para suas atividades corriqueiras".

"Enxugue" suas atividades
"Ninguém dimensiona o que é ter um filho, pois não há algo comparável na vida de uma pessoa. Este é um grande projeto e que, portanto, requer tempo e dedicação." A partir dessa definição, Magdalena propõe que todas as atividades "secundárias" sejam eliminadas da rotina da mãe até a criança ter, pelo menos, três anos. "Não programe grandes viagens, deixe a pós-graduação para depois. Enxugue suas atividades para se dedicar a seu filho", aconselha.

Cuide de você
É fundamental ter um momento só para você. E, segundo Sheila, isso não é uma medida egocêntrica, mas sim educacional. "Se a mulher passar do seu limite e não estiver bem, ela não conseguirá cuidar do outro. Além do mais, ela se torna um bom modelo para os filhos ao mostrar a importância dos cuidados com o próprio corpo e espírito", esclarece.

Diminua o ritmo de trabalho
Se todas as mães pudessem se dar ao luxo de uma "parada técnica" no meio da carreira para se entregar às exigências da maternidade, seria ótimo. No entanto, isso não é realidade para a maioria e nem indicado pelas especialistas. "Deixar totalmente a profissão de lado é ruim, pois um dia a criança cresce e a mulher não consegue mais recuperar os anos perdidos fora do mercado de trabalho", alerta Magdalena.

E a terapeuta é muita clara ao dizer que para quem trabalha num lugar que "tira o sangue dos funcionários", não cabe um filho na rotina. "É preciso o mínimo de planejamento para que depois a mãe não se descabele", define bem-humorada. A saída, portanto, é verificar com sua empresa se é possível trabalhar algumas horas de casa ou como autônoma.

Dublê de mãe
Como já estamos cansadas de saber, os cuidados do bebê nem sempre são exclusivos da mãe. Seja uma babá, a avó, berçário ou o que seja, é preciso de uma forcinha para olhar do pequeno. E, para Magdalena Ramos é primordial escolher alguém de confiança e essa decisão deve ser tomada exclusivamente pela mãe. "A mulher precisa ficar o mais confortável possível nos momentos que estiver longe do seu filho e isso só acontece se ela tiver certeza de que ele está sendo bem cuidado", explica. E, ainda de acordo com a terapeuta, não adianta recorrer a uma saída mais conveniente - por exemplo deixar a criança com algum parente - se a mãe não tiver uma boa relação com essa pessoa.

Sheila destaca que a mulher precisa estar consciente de que se ela trabalha fora de casa, não acompanhará de perto o crescimento do seu filho e que ele irá desenvolver um vínculo amoroso com outra pessoa. Por isso, se faz necessário uma escolha pra lá de caprichada.

Estimule a participação do pai
Tudo bem que alguns camaradas realmente não contribuem. Mas as coisas já estão um pouco melhores na nossa geração e os pais fazem questão de participar. No entanto, algumas mães - superprotetoras - acreditam que só elas são capazes de cuidar do bebê. "Você troca a frauda do jeito errado", "Não brinque com ele desse jeito, senão pode machucá-lo". Frases desses tipos podem, segundo Sheila, roubar do homem a possibilidade de ser pai.

E caso o pai não esteja presente durante a criação do pequeno - o que é algo recorrendo hoje em dia -, a mulher precisa ampliar sua rede de relacionamento para que outras pessoas sirvam de exemplo para a criança. De acordo com a fundadora do Mãe Pessoa, essa postura também é importante para que a mulher não fique apenas numa relação fechada e exclusiva entre mãe e filho.

Serviço:
Magdalena Ramos - psicóloga terapeuta de casais e família, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e co-autora do livro E Agora, o que Fazer? A Difícil Arte de Criar os Filhos

Sheila Skitnevshy-Finger - psicóloga e sócia fundadora do Instituto Mãe Pessoa
http://www.maepessoa.com.br/

Mothern - Manual da Mãe Moderna






Redação Terra

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A corporeidade da Mãe Pessoa - Nosso corpo é a nossa história

Você nunca mais será a mesma, nem por dentro nem por fora... não há como passar pela experiência de ficar grávida e ter um filho e não ter uma mudança a nível corporal. Mas a gente não quer admitir essa mudança. Não quer e não pode. Não pode porque a sociedade não oferece mais um lugar de valor para o corpo materno, como antigamente ocorria. Passamos da água para o vinho em certo sentido. De uma valorização da mãe inteiramente devotada - que não precisava se cuidar do ponto de vista corporal, pois ela era respeitada por ser mãe - passamos à expectativa de que a mãe rapidamente recupere a boa forma.Quantas de nós já saímos da maternidade reclamando da barriga e na primeira consulta ao ginecologista já queremos saber quando podemos voltar a malhar... E provavelmente ele vai falar : em seis semanas vida normal... Sim, normal para ele que estará no consultório tranquilamente nas próximas semanas. Para a mulher que virou mãe de corpo e alma, seis semanas ainda é um tempo em que está aprendendo a "andar de novo..." No entanto, há uma grande pressa de voltar a ser o que se era antes, como se esse novo corpo, essa nova vida não fosse suficientemente interessante. É preciso voltar a ser como antes. Como se a vida abrisse essa possibilidade de retorno ao antes. E pergunto: quem quer fazer exercício depois de se exercitar o dia inteiro atrás do filho? Nos primeiros anos de maternidade a vida é puro exercício aeróbico, sem descanso, com pouco sono e muito que fazer. Talvez não seja exercício localizado, por isso não perdemos calorias no lugar que precisamos. Depois de viver a maternidade, hoje considero a natureza sábia. Aquelas calorias a mais que carregamos são uma proteção, senão desmaiamos no meio da rua de cansaço.Entretanto o mundo só tem olhos para a sua barriguinha... e como não temos nenhum modelo alternativo de “beleza materna” para nos espelhar, tendemos a achar que a solução está na malhação. Quando ligamos a televisão, é um choque: estão todos saradíssimos, esbeltos, magros e bronzeados. Ainda piorou depois que a Globo colocou o filtro que evita o envelhecimento das imagens dos seus atores. Assim nos sentimos fora da possibilidade de qualquer elogio e, algumas revistas continuam insistindo em exercícios mágicos e dietas milagrosas. Diga-me: Há alguém dialogando sobre a corporeidade da pessoa que vive a maternidade? Isto é, dialogando sobre a transformação pela qual passou o corpo que foi submetido aos aspectos físicos, emocionais e espirituais da experiência da maternidade? Alguém dialoga com o corpo que vive o exercício de cuidar de um bebê vinte e quatro horas por dia, em que a prioridade é o corpo do Outro, frágil, instável e sensível? Mirian Goldenberg, no seu artigo: “O corpo como Capital: Para Compreender a Cultura Brasileira”(2006), aponta uma realidade incontestável da contemporaneidade: Pode-se enxergar melhor o paradoxo apontado por Lipovetsky com a idéia de “contrários em equilíbrio” de Gilberto Freyre. No Brasil, o desenvolvimento do individualismo e a intensificação das pressões sociais das normas do corpo caminham juntos. De um lado, o corpo da brasileira se emancipou amplamente de suas antigas servidões - sexuais, procriadoras ou indumentárias-; de outro, encontra-se, atualmente submetido a coerções estéticas mais regulares, mais imperativas e mais geradoras de ansiedade do que antigamente. Vivemos, então, um “equilíbrio de antagonismos”: um dos momentos de maior independência e liberdade femininas é também aquele em que um alto grau de controle em relação ao corpo e à aparência se impõe à mulher brasileira.
Estamos frente a uma contradição que me deixa perplexa e para a qual não tenho resposta. Tenho procurado escutar a mim mesma, mãe de 40 anos e psicóloga e, também, procurado escutar muitas mães com as quais venho trabalhando.Por outro lado, vejo na clínica meninas jovens se disponibilizarem a pagar um preço alto para tentar se aproximar do corpo “global” e da imagem corporal globalizada pela mídia do mundo todo. O corpo é um capital importante no mundo contemporâneo, particularmente o corpo feminino. No passado a maternidade em si acrescentava valor à mulher. Com as conquistas da modernidade temos uma situação paradoxal em termos de valor em que o visual da mulher compete com a competência profissional. Isso vem acontecendo de tal forma que da mãe se espera que rapidamente volte tanto ao mercado de trabalho quanto às formas da mulher que foi anteriormente. Poderia se dizer que há uma tripla jornada de trabalho para a mãe, porque além do corpo malhado e do sucesso profissional se espera dela que seja uma boa mãe. De fato há um progresso em relação à maternidade do passado, em que a mulher ficava confinada em casa e da qual se esperava pouco investimento na estética corporal e na vida profissional. Em contrapartida, há um olhar discriminador em relação a mãe que resiste ou não consegue mesclar academia intensiva com cuidar do bebê e de sua vida profissional. Isso, porque a reflexão sobre o impacto da maternidade sobre nós como pessoas fica completamente sem espaço para emergir. No fundo de nós mesmas fica a questão: quando esta sociedade dará um lugar, dará valor e não desprezo para o corpo real, para o corpo possível pela vida que se vive? Isto é, para o corpo que tem memória, e portanto, marcas, para o corpo que tem história e portanto significados, sem culpa pela perda do corpo adolescente? Sim, houve uma libertação da mulher em relação ao confinamento doméstico após casamento e maternidade, mas a questão que fica é: a liberdade de um modelo não está se dando ao preço da submissão a outro modelo igualmente punitivo e tirânico? Hoje em dia é raro ver uma mulher que esteja satisfeita com seu corpo. Internalizamos de tal forma o modelo de beleza imposto pela mídia que estamos sempre em falta. Em falta com essa imagem cruel do corpo da mulher no qual nossa história não pode deixar vestígios. Há sempre produtos e serviços “capazes” de eliminar estes restos indesejáveis de nossas dores, experiências e aventuras pela vida. O mito do corpo perfeito é assimilado sem críticas pelos homens e, naturalmente por nós, mulheres e mães. Como se fosse possível e mesmo desejável, viver em toda sua plenitude uma vida rica de experiências, entre as quais a da maternidade - evento que nos afeta no núcleo de nossa corporeidade e manter um corpo intacto. Nosso corpo é nossa história. Como crescer espiritualmente e não aceitar que nosso corpo se transforma aos olhos dos outros e para nós mesmos? Uma coisa é a estética de um corpo bonito, nada contra. Outra é não ter valor um corpo materno, com estrias, marcas, gordurinhas, que se desgasta na devoção ao seu bebê e na conciliação desta enorme tarefa com a volta ao mercado de trabalho. O corpo materno, que sabiamente é mais carnudinho para ser um colo, deveria ser o corpo almejável e até reverenciado pela beleza da experiência que contêm. Por enquanto, entretanto, o corpo desejável da mulher brasileira é o corpo esguio da adolescente, e não é rara a nossa frustração quando chegamos a uma loja de roupas e percebemos que o tamanho G de uma roupa é ridiculamente pequeno. No nosso curso Maternidade na Modernidade(http://www.maepessoa.com.br/) temos uma aula onde começamos a abrir essa possibilidade de aceitar outros modelos corporais, menos esculturais, mas não por isso menos belos. Corpos que contam histórias. Há até algumas empresas, como a Dove e a Natura, que tentam ter mais compaixão com uma mulher real revelando sua beleza, dignidade e legitimidade.Nossa consciência enquanto mãe-pessoa é nosso único recurso para reverter esse caminho que parece ser um progresso e, no entanto, pode ser tão opressor quanto a velha desqualificação estética e sensual da mãe de outros tempos.
Por Tania Novinsky Haberkorn - email: tania@maepessoa.com.br