sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A corporeidade da Mãe Pessoa - Nosso corpo é a nossa história

Você nunca mais será a mesma, nem por dentro nem por fora... não há como passar pela experiência de ficar grávida e ter um filho e não ter uma mudança a nível corporal. Mas a gente não quer admitir essa mudança. Não quer e não pode. Não pode porque a sociedade não oferece mais um lugar de valor para o corpo materno, como antigamente ocorria. Passamos da água para o vinho em certo sentido. De uma valorização da mãe inteiramente devotada - que não precisava se cuidar do ponto de vista corporal, pois ela era respeitada por ser mãe - passamos à expectativa de que a mãe rapidamente recupere a boa forma.Quantas de nós já saímos da maternidade reclamando da barriga e na primeira consulta ao ginecologista já queremos saber quando podemos voltar a malhar... E provavelmente ele vai falar : em seis semanas vida normal... Sim, normal para ele que estará no consultório tranquilamente nas próximas semanas. Para a mulher que virou mãe de corpo e alma, seis semanas ainda é um tempo em que está aprendendo a "andar de novo..." No entanto, há uma grande pressa de voltar a ser o que se era antes, como se esse novo corpo, essa nova vida não fosse suficientemente interessante. É preciso voltar a ser como antes. Como se a vida abrisse essa possibilidade de retorno ao antes. E pergunto: quem quer fazer exercício depois de se exercitar o dia inteiro atrás do filho? Nos primeiros anos de maternidade a vida é puro exercício aeróbico, sem descanso, com pouco sono e muito que fazer. Talvez não seja exercício localizado, por isso não perdemos calorias no lugar que precisamos. Depois de viver a maternidade, hoje considero a natureza sábia. Aquelas calorias a mais que carregamos são uma proteção, senão desmaiamos no meio da rua de cansaço.Entretanto o mundo só tem olhos para a sua barriguinha... e como não temos nenhum modelo alternativo de “beleza materna” para nos espelhar, tendemos a achar que a solução está na malhação. Quando ligamos a televisão, é um choque: estão todos saradíssimos, esbeltos, magros e bronzeados. Ainda piorou depois que a Globo colocou o filtro que evita o envelhecimento das imagens dos seus atores. Assim nos sentimos fora da possibilidade de qualquer elogio e, algumas revistas continuam insistindo em exercícios mágicos e dietas milagrosas. Diga-me: Há alguém dialogando sobre a corporeidade da pessoa que vive a maternidade? Isto é, dialogando sobre a transformação pela qual passou o corpo que foi submetido aos aspectos físicos, emocionais e espirituais da experiência da maternidade? Alguém dialoga com o corpo que vive o exercício de cuidar de um bebê vinte e quatro horas por dia, em que a prioridade é o corpo do Outro, frágil, instável e sensível? Mirian Goldenberg, no seu artigo: “O corpo como Capital: Para Compreender a Cultura Brasileira”(2006), aponta uma realidade incontestável da contemporaneidade: Pode-se enxergar melhor o paradoxo apontado por Lipovetsky com a idéia de “contrários em equilíbrio” de Gilberto Freyre. No Brasil, o desenvolvimento do individualismo e a intensificação das pressões sociais das normas do corpo caminham juntos. De um lado, o corpo da brasileira se emancipou amplamente de suas antigas servidões - sexuais, procriadoras ou indumentárias-; de outro, encontra-se, atualmente submetido a coerções estéticas mais regulares, mais imperativas e mais geradoras de ansiedade do que antigamente. Vivemos, então, um “equilíbrio de antagonismos”: um dos momentos de maior independência e liberdade femininas é também aquele em que um alto grau de controle em relação ao corpo e à aparência se impõe à mulher brasileira.
Estamos frente a uma contradição que me deixa perplexa e para a qual não tenho resposta. Tenho procurado escutar a mim mesma, mãe de 40 anos e psicóloga e, também, procurado escutar muitas mães com as quais venho trabalhando.Por outro lado, vejo na clínica meninas jovens se disponibilizarem a pagar um preço alto para tentar se aproximar do corpo “global” e da imagem corporal globalizada pela mídia do mundo todo. O corpo é um capital importante no mundo contemporâneo, particularmente o corpo feminino. No passado a maternidade em si acrescentava valor à mulher. Com as conquistas da modernidade temos uma situação paradoxal em termos de valor em que o visual da mulher compete com a competência profissional. Isso vem acontecendo de tal forma que da mãe se espera que rapidamente volte tanto ao mercado de trabalho quanto às formas da mulher que foi anteriormente. Poderia se dizer que há uma tripla jornada de trabalho para a mãe, porque além do corpo malhado e do sucesso profissional se espera dela que seja uma boa mãe. De fato há um progresso em relação à maternidade do passado, em que a mulher ficava confinada em casa e da qual se esperava pouco investimento na estética corporal e na vida profissional. Em contrapartida, há um olhar discriminador em relação a mãe que resiste ou não consegue mesclar academia intensiva com cuidar do bebê e de sua vida profissional. Isso, porque a reflexão sobre o impacto da maternidade sobre nós como pessoas fica completamente sem espaço para emergir. No fundo de nós mesmas fica a questão: quando esta sociedade dará um lugar, dará valor e não desprezo para o corpo real, para o corpo possível pela vida que se vive? Isto é, para o corpo que tem memória, e portanto, marcas, para o corpo que tem história e portanto significados, sem culpa pela perda do corpo adolescente? Sim, houve uma libertação da mulher em relação ao confinamento doméstico após casamento e maternidade, mas a questão que fica é: a liberdade de um modelo não está se dando ao preço da submissão a outro modelo igualmente punitivo e tirânico? Hoje em dia é raro ver uma mulher que esteja satisfeita com seu corpo. Internalizamos de tal forma o modelo de beleza imposto pela mídia que estamos sempre em falta. Em falta com essa imagem cruel do corpo da mulher no qual nossa história não pode deixar vestígios. Há sempre produtos e serviços “capazes” de eliminar estes restos indesejáveis de nossas dores, experiências e aventuras pela vida. O mito do corpo perfeito é assimilado sem críticas pelos homens e, naturalmente por nós, mulheres e mães. Como se fosse possível e mesmo desejável, viver em toda sua plenitude uma vida rica de experiências, entre as quais a da maternidade - evento que nos afeta no núcleo de nossa corporeidade e manter um corpo intacto. Nosso corpo é nossa história. Como crescer espiritualmente e não aceitar que nosso corpo se transforma aos olhos dos outros e para nós mesmos? Uma coisa é a estética de um corpo bonito, nada contra. Outra é não ter valor um corpo materno, com estrias, marcas, gordurinhas, que se desgasta na devoção ao seu bebê e na conciliação desta enorme tarefa com a volta ao mercado de trabalho. O corpo materno, que sabiamente é mais carnudinho para ser um colo, deveria ser o corpo almejável e até reverenciado pela beleza da experiência que contêm. Por enquanto, entretanto, o corpo desejável da mulher brasileira é o corpo esguio da adolescente, e não é rara a nossa frustração quando chegamos a uma loja de roupas e percebemos que o tamanho G de uma roupa é ridiculamente pequeno. No nosso curso Maternidade na Modernidade(http://www.maepessoa.com.br/) temos uma aula onde começamos a abrir essa possibilidade de aceitar outros modelos corporais, menos esculturais, mas não por isso menos belos. Corpos que contam histórias. Há até algumas empresas, como a Dove e a Natura, que tentam ter mais compaixão com uma mulher real revelando sua beleza, dignidade e legitimidade.Nossa consciência enquanto mãe-pessoa é nosso único recurso para reverter esse caminho que parece ser um progresso e, no entanto, pode ser tão opressor quanto a velha desqualificação estética e sensual da mãe de outros tempos.
Por Tania Novinsky Haberkorn - email: tania@maepessoa.com.br

3 comentários:

Tania & Sheila disse...

Artigo excelente, é preciso mudar esse julgamento do impacto sobre o nosso corpo. E o pior é que sao as proprias mulheres, às vezes mais até do que seus companheiros, que se exigem um corpo "como antes" e se sentem feias. Vamos mudar nossas cabeças, se nos aceitarmos mudadas (o que não significa desleixadas), os que nos amam so poderão nos admirar mais.
Parabéns pela sua luta!

Monica
23 de Fevereiro de 2008 05:12

mãe global disse...

Tânia,
Texto brilhante. Como é necessária esta mudança na nossa sociedade para que as mulheres não percam sua auto-estima em busca de um corpo escultural. Vou divulgar o blog e o site. Parabéns pelo trabalho!
Rosana

Cecília disse...

Tania,
Já tem algum tempo quando uma amiga me disse:"Você devia fazer aquela micro cirurgia e "suavizar" todas as "marcas de expressão" de sua face!"
Foi quando me vi observando minhas próprias marcas no espelho...Pensei comigo:-Suavizar o quê? Elas são resultado, fruto de muitas experiências vividas com muita intensidade...Alegrias, dores,prazeres que se mostraram através de risos, gritos, lágrimas...enquanto mãe e enquanto mulher...Não quero me desfazer delas...elas simbolizam minhas experiências de vida! Que continuem "impressas" em minh'alma!!!
Parabéns!!! Belo trabalho...
Ciça