domingo, 23 de agosto de 2009

"Cansaço" de ser só mãe e culpa

Olá! Peguei o endereço do site de vocês na revista Crescer. Adorei a matéria que lí e resolvi entrar no site de vocês, pois estou precisando de uma grande ajuda.
Bom, resumidamente contarei aqui mais ou menos a minha situação.
Tenho 24 anos, tenho uma filha maravilhosa que completará 7 meses dia 23 de Agosto. Até o 5º mes dela eu recebi o salário maternidade do governo e até então, financeiramente eu e meu marido não tinhamos "problemas" financeiros.
Quando o meu salário maternidade acabou começaram os "problemas" financeiros e as brigas de casal em decorrência a isso. Sempre trabalhei, mesmo sendo "nova" e por isso também não gostei nem um pouco de ser sustentada nesses últimos 3 meses. Então em meio as muitas brigas resolvi que iria voltar a trabalhar. Consegui um emprego.
Minha mãe não trabalha, então ela é quem cuida da minha filha. Só que tenho sofrido MUITO com alguns tipos de sentimentos estranhos, porém acho que completamente normais. Conversei com algumas amigas que me disseram que também tinham os sentido. Mas gostaria de ouvir algo de mais mães e de profissionais como vocês, alguns conselhos e a experiência de vocês em relação a isso, para me reconfortarem um pouco mais.

Todos os dias choro muito, pois tenho um sentimento de que estou abandonando a minha filha e que ela nunca me perdoará (mesmo sabendo que o mesmo aconteceu com a minha mãe e eu e bem antes de mim, pois na minha época a licença maternidade era de apenas 3 meses e com 2 e meio eu já estava em um berçário e mesmo assim, hoje em dia eu não tenho nenhuma "mágoa" ou raiva da minha mãe por ter feito isso, era uma questão de necessidade.)

Mesmo antes de começar a trabalhar, eu tinha um outro sentimento também, parecido com um "cansaço" de ser só mãe o tempo inteiro. Não cansada da minha filha, mas algo parecido, pois eu não tinha mais tempo para fazer com calma as coisas que eu fazia antigamente, coisas simples e corriqueiras da vida, como por exemplo, ir ao banheiro tranquilamente.
Queria me sentir uma pessoa também, além de mãe claro, porque isso eu não abdicaria nunca mais da minha vida, pois a minha é simplesmente a melhor coisa que já aconteceu, eu a amo muito e não conseguiria nem respirar mais caso eu a perdesse.

Gostaria de saber se podem me ajudar em mais um ponto. Ela mama no peito ainda (Graças a Deus). Então a rotina alimentar dela é assim: Acorda, toma um suco de fruta, depois almoça e sobremesa. O resto do dia era só peito. Mas agora eu quero saber o que posso fazer? A minha bomba de tirar leite é muito ruim. Pedi alguns conselhos e me indicaram o leite em pó NINHO FORTIFICADO o INTEGRAL e não o instantâneo (pois dizem que esse dá muita cólica) O que vocês me sugerem? Tentei dar pra ela hoje, mas ela parece que não gostou muito, fez algumas caretas, mesmo porque ela ainda não se adaptou totalmente a mamadeira (mesmo com o suquinho da manhã.)
Bom, gostaria muito que vocês me respondessem e se quiserem passar esse e-mail á algumas outras mães para que elas me respondam também, sintam-se a vontade! Muito obrigada e parabéns pelo trabalho.
Aguardo contato.
Mariana

COMENTÁRIOS MÃE PESSOA:
Cara Mariana, obrigada pela mensagem!
Seus comentários e dúvidas tocam em questões muito interessantes e importantes para as mulheres, mães, profissionais de hoje. Equilibrar todos esses papéis requer mesmo muito malabarismo. É fato que hoje as mulheres precisam trabalhar, enquanto também querem ser mães presentes sem deixar de cuidar do seu lado pessoa.
Nós, mulheres de hoje, somos criadas para ter uma vida além da maternidade, e por isso investimos em nossas profissões e temos ambições e aspirações que vão além do papel de mãe. A maternagem em tempo integral pode não dar conta de tudo isso.
Foi pensando em todas estas questões que criamos o INSTITUTO MÃE PESSOA, para auxiliar mulheres nessa jornada, principalmente porque acreditamos que é impossível fazer tudo sozinha.
Sobre o que você escreve, alguns comentários:

Antes de tudo, é importante você saber que os sentimentos de culpa e as saudades fazem parte desse processo de separação mãe-bebê, como você mesma já percebeu conversando com as suas amigas. Mais ainda, crianças são muito resilientes, e se adaptam à sua situação e realidade, sem grandes mágoas ou traumas – como em sua própria vida, quanto conta de sua mãe no trabalho, e do seu reconhecimento de que ela fez o melhor que podia para que você ficasse bem cuidada enquanto ela estava trabalhando.

Portanto, poder contar com a sua mãe pode ser um ponto muito positivo na sua vida, se souber aproveitá-lo bem. Isso pode te dar uma segurança a mais, sabendo que sua filha está com alguém que a ama muito e vai procurar cuidar muito bem. O importante será então se organizar para poder compartilhar com a mãe/avó os cuidados e os momentos especiais.

Para isso, uma dica importante: estabeleça uma rotina com a sua filha onde alguns dos cuidados diários possam ser sempre feitos por voce. Isso vai te possibilitar manter uma relação de qualidade com a tua filha. Por exemplo, eleja alguns momentos como o banho, o jantar, e/ou o ritual na hora de dormir, e guarde estes momentos para curtir com ela, se disponibilizando para que as duas saibam que este é o momento só de voces, que possam esperar por ele. Isto diminue a culpa da mãe assim como a ansiedade da criança, pois ela aprende a esperar, depositando suas expectativas naquele momento esperado.

Não se preocupe se no começo – e de vez em quando depois também – ela estiver mais irritadiça ou carente bem nestes momentos: isto vai significar que ela entendeu que estes são os momentos “especiais” de vocês, e ela está guardando o “pedido de colo” especialmente para você. É como se ela pudesse estar te dizendo: “consegui esperar até agora, eu sabia que estaria com você, por isso agora posso relaxar e chorar, ou pedir colo, pois sei que você vai segurar a minha onda!”. O teu papel então será acolhe-la, com muito abraço e muito carinho... Você pode (deve!) até verbalizar para ela, dizendo algo como: “eu sei que você me esperou até agora... Eu também estava esperando por esse momento. Agora a mamãe está aqui, está tudo bem, estamos bem!”. Com o tempo ela vai se sentir segura com este carinho e esta presença tua, e estes momentos especiais serão menos intensos e mais gostosos... Além disso, com o tempo vocês poderão criar outros rituais juntas, que possam ir se modificando e acompanhando seu crescimento.

Enquanto são pequenas, a relação com as crianças passa muito pelo cuidado básico – banho, troca, alimentação, etc. Mas a medida que vão crescendo, o relacionamento passa a incluir também outros momentos, e aí os rituais de banho ou jantar poderão ser substituídos por outros, como ler juntas, ter momentos de conversa, ou fazer um passeio que ambas curtam, como ir a uma praça ou a um shopping.

O importante é que vocês aprenderão juntas que não importa o que houver, não importa quantas horas vocês realmente passarem juntas, você estará emocionalmente e afetivamente disponível e atenta a ela e suas necessidades! Lembre-se: não se trata de quantidade de horas que passamos junto com nossos filhos, mas sim, da qualidade deste tempo. Ficar 24 horas por dia “perto” das crianças, mas constantemente ocupada com outras coisas, ou estressada com problemas, ou falando ao telefone, não se compara a ter algumas poucas horas por dia que sejam reservadas para uma relação gostosa, atenta, e verdadeiramente disponível: para brincar, para conversar, para cuidar...

Sobre a questão da alimentação, algumas observações: primeiro de tudo, como dissemos antes, é impossível fazer tudo sozinha. Você precisa sim de alguém que possa te orientar quanto à alimentação infantil. Livros trazem dicas, pessoas trocam ideias, mas em alguns aspectos, cada caso é um caso.
Se a criança não está aceitando mamadeira, é preciso que se pense o por quê: pode ser que ela não tenha gostado do gosto; pode ser que o tipo de bico não combine com a forma dela mamar; pode ser que o tipo de leite oferecido realmente não lhe caia bem... Tem crianças que vão do peito ao copo, sem passar pela mamadeira; tem crianças que não se adaptam a tomar leite depois que desmamam, e vão substituir o leite por outros laticínios, como queijos, danones, ou mesmo leite de soja.
Para saber se a alimentação da sua filha está balanceada, e o que incluir em seu cardápio, é realmente necessário um acompanhamento especializado, com um pediatra ou nutricionista. Talvez baste apenas uma consulta com tempo e disposição para conversar sobre esse assunto com seu pediatra, para você ter a tranquilidade de como fazer essa transição do peito para os alimentos.
O mais importante nesta fase de introdução à alimentação é que se respeite o tempo e estilo da criança, para que a criança tenha prazer em se alimentar, e fique aberta à experiência de experimentar novos gostos e sabores.
Esperamos assim ter contribuído com algumas das tuas questões.
Gostaríamos de lembrar ainda que uma das modalidades de atendimentos e treinamentos que realizamos é o “coaching”, ou seja, uma série de encontros que visam abordar de forma pontual e objetiva desde questões gerais sobre as dificuldades de ter filhos, até questões específicas trazidas por nossas clientes. Se você tiver interesse em conversar sobre essa possibilidade, estaremos à sua inteira disposição.
Por último, queremos agradecer a tua generosa oferta de compartilharmos tuas questões com outras mães e interessados.

Atenciosamente e com um grande abraço,
Sheila Skitnevsky Finger &
Tania Novinsky Haberkorn

Um comentário:

Bya.moon disse...

Adorei o post e bem indicativo nas horários do desespero e dos surtos..rs..rs.